Nascimento de um Conto ( parte I)
A PORTA DO QUARTO SE ABRIU e acendi a luz. No instante em que ela penetrou no quarto, soube que algo se retraía no chão. A visão da minha mesa, das estantes e dos livros me encheu de uma estranha nostalgia. Por um segundo, senti falta do escuro naquele aposento que, agora iluminado, me parecia incompleto. Mas logo dei de ombros. Ainda estava escuro embaixo da cama.
Sentei-me defronte ao computador e o liguei. Enquanto a máquina inicializava, respirei fundo e foi tentando me concentrar para entrar em contato com o meu eu interior. Mesmo sabendo da completa inutilidade de qualquer eespécie de fragmentação da minha identidade, eu gosto desse ritual. Me deixa mais consciente de minha própria ignorância.
Fui abrindo meus arquivos com o mouse e reli minhas anotações. Era hora de reorganizar, com o auxílio das palavras-chave anotadas no processador de texto, todas as minhas lembranças acerca do que eu iria escrever. Essas anotações, tão úteis para mim como cristalização das idéias, de cada momento, cada emoção e cada possível metáfora não davam conta, no entanto, do conto em torno d qual tais momentos, emoções e metáforas estavam prestes a se reunir. “É por isso que análise literária não presta”, pensei, e fui passando na memória o não-conto que iria se tornar conto.
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P.H. Wolf
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15h17
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Nascimento de um Conto ( parte II)
No meio da leitura, percebi que, de tanto olhar para a tela brilhante, o quarto à minha volta estava mais escuro para meus olhos e sorri, acolhendo e sendo acolhido por aquela treva.
Então ouvi, aparentemente vindo debaixo da minha cama, uma voz doce e jovial, mas que parecia ser mais antiga que o Sol, entoando uma canção em grego clássico. Lentamente aquele som foi me invadindo, me dotando de uma embriaguez incompreensível e paralisante que, embora me impelisse à ação, não podia ser expresso por voz humana. Apenas a meus dedos era permitido que se movimentassem. E eles o faziam com extrema competência, cada toque reproduzindo toda a História da Escrita, se unindo às figuras do homem pré-histórico, aos hieróglifos à margem do Nilo, às runas talhadas em pedras circulares, aos ideogramas pintados em folhas de arroz.
Por fim, o Silêncio. Início e fim de qualquer obra contida no tempo, o Silêncio tomou conta do quarto, contendo todas as cores do mundo. O conto estava ali, completo. Salvei o arquivo, desliguei o monitor e fechei os olhos para lê-lo melhor e absorver tudo o que ele queria me dizer e que não havia sido originalmente pensado pela minha consciência. Deixei cair uma lágrima de orgulho e inveja por esse conto que, por mais que fosse meu filho, saíra a cara da mãe.
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P.H. Wolf
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15h15
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