Reencarn(ação)
Uma cigana me disse uma vez
que eu era Alberto Caeiro reencarnado.
"Mas ele é uma criação de Fernando Pessoa", repliquei. "Ele nunca existiu."
A cigana, me perscrutando com suas bolas de cristal
(as de verdade, que ela guarda atrás dos óculos), me perguntou:
"E você, existe?"
Não sei.
Eu existo?
Eu existo?
Não sei.
Sei que há frias noites de chuva
em que, mirando uma parede qualquer,
faço exatamente isso: Existir,
nada mais. Eu e a parede
somos, apenas. Todo o resto,
Contemplar, Sofrer, se Indispor,
torna-se irrelevante.
Uma cigana me disse uma vez
que eu era Alberto Caeiro reencarnado.
Em noites como essa eu acredito.
Postado por
P.H. Wolf
às
11h21
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Preferência
Prefiro os poetas vivos aos mortos.
Não é questão de qualidade.
Ferreira Gullar, por exemplo, não
é melhor do que Carlos Drummond de Andrade.
E Helder Mecedo dificilmente
superará seu mestre Luis de Camões.
No entanto, um certo odor de cemitério
permeia a obra viva de um poeta morto,
como uma penumbra de sétimo dia,
ou o som de um Stradivarius
(não o violino).
E, embora eu não tenha lido tudo o que Camões escreveu
nem conheça de Drummond tanto quanto gostaria,
tanto quanto deveria,
há poemas de Gullar e de Helder
que eles próprios desconhecem.
São esses os poemas que eu mais amo,
porque eles exalam um perfume de futuro,
de sentimentos em estado bruto,
de poesia virgem.
Enquanto houver poemas por fazer,
o mundo tem jeito.
Postado por
P.H. Wolf
às
11h15
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sentir (poema em três atos)
1 - Te vi!
Tua carne leve,
Tua alma breve,
Tua pele, neve.
2 - Nos tocamos.
Nossa pele nua,
Nossa carne crua,
Nossa alma, lua.
3 - Me deixarás...
Minha alma morta,
Minha pele torta,
Minah carne, porta.
Postado por
P.H. Wolf
às
10h16
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eterno
Não só as nuvens, mas tudo é eterno.
A chama de uma vela é eterna,
assim como a luz de uma estrela inexistente.
Também são eternos as plantas e os animais,
sobretudo os mortos.
Tudo é eterno
- exceto o homem.
Somente o homem é semi-eterno,
e esta é a origem de suas angústias.
O homem é o único ser, em toda a Criação,
que precisa conciliar o seu corpo imortal
com uma alma mortal.
Postado por
P.H. Wolf
às
10h11
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